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Artigo | Papagaios fora de época - Pádua Marques

Quem um dia foi menino e hoje tem mais de sessenta anos de idade, sabe que existe uma sabedoria, uma ciência, uma crença que diz, quando a gente vê papagaio no céu pelo mês de fevereiro ou março é porque o inverno, o período chuvoso está indo embora. E este mau presságio não é nada bom pra quem, assim como os lavradores, esse pessoal que planta nas roças, porque representa uma quebra no ciclo natural de seu trabalho. Representa desgraça devido à estiagem nos campos e põe fim a pouca oferta de alimentos na mesa de casa. 


Eu disse papagaio porque é assim que desde que me entendo por gente conheço este brinquedo feito com folhas de papel crepom e hastes de pindoba. Que colocando um carretel de linha e um rabo feito de folhas de jornal ou de saco de cimento, o de melhor peso e mais recomendável. Entre os meninos de meu tempo, montar um papagaio era como montar um avião. Os meninos mais experientes sempre à frente, confeccionando as peças, dando as ordens e observando tudo, corrigindo uma coisa aqui e outra ali. 

No chão das casas, nas garagens, aquela oficina barulhenta era sempre desarrumada. Vidros de cola, papel, tesouras, carreteis de linha, papel crepom. Os meninos mais novos sempre atentos, falantes e esperançosos de ver seu engenho voando com toda aquela elegância de causar inveja. Muitos eram obrigados a refazer seus papagaios porque pela visão dos mais veteranos não alcançariam êxito na hora de voar. Dá uma emoção e tanto quando um papagaio ganha o céu com todas aquelas manobras possíveis e impossíveis. E causa um orgulho danado em nós e nos outros competidores e nas meninas que estão por perto. 

Pelo menos era assim no meu tempo. Se bem que eu só tive um papagaio na infância. Mas achou de se enganchar num pé de cajá umbu da casa do vizinho. Criei um trauma e nunca mais me interessei por outros, embora ainda hoje ache lindas aquelas peças tão leves e coloridas fazendo todas aquelas piruetas no ar. Papagaio, pipa, raia. Não vem ao caso aqui o nome que leva de região pra região. O importante é que este brinquedo inventado, dizem, pelos chineses, realmente é maravilhoso. 

Os meninos do meu tempo sabiam a época certa de fazer e soltar seus papagaios. Meados de julho pra agosto, época de ventos fortes e céu com poucas nuvens. Hoje os meninos são diferentes. Os meninos de hoje não saem mais à rua. Os meninos de hoje não se sentam nas calçadas. Os meninos de hoje são por necessidade muito solitários, egoístas com seus brinquedos eletrônicos. Eles não conhecem a liberdade e a imensa felicidade de soltar uma pipa. Pobres meninos de hoje! Todos aqueles volteios, as peças de cores mistas, de caudas coloridas, a linha especial e as manobras pra destruir os concorrentes nas competições. 

Me faz lembrar outro tipo de papagaio. O papagaio político profissional que está sendo montado nos galpões das assessorias neste período entre o Carnaval e a Semana Santa. Dentro de mais alguns dias eles estarão se mostrando nas praças, nas ruas pobres e no meio dos miseráveis pelos bairros. Estarão concorrendo uma alçada de voo com os papagaios de papel dos meninos de calções encardidos e esfarrapados. Os papagaios que estarão correndo atrás de um emprego de quatro anos nas câmaras municipais e nas prefeituras. Virão pra os subúrbios rápidos e com camisas coloridas. 

Os papagaios, ainda agora candidatos, estarão prometendo as mesmas coisas. Educação saúde e segurança. E os meninos de periferia estarão ali nas esquinas e nos campos de jogo de bola esperando um vento bom de meio da manhã ou de meio de tarde pra soltarem seus papagaios. E agora neste fevereiro que está indo embora os papagaios políticos estão montando suas estruturas. Não aquelas feitas de hastes de pindoba coladas no papel crepom e com toda aquela perfeição de uma grande peça de engenharia, mas os mecanismos pra ganhar a atenção do eleitor incauto e homem comum, o mais ignorante. 

Este homem, que ainda devido sua ignorância política, acredita em tudo aquilo que vê no céu. Os políticos que estarão no céu das ruas serão os mesmos. Pelo menos os papagaios dos meninos têm uma vantagem sobre os papagaios, as pipas ou as raias políticas. Estes brinquedos de meninos, fora de época, são apenas superstições que os meninos de meu tempo levaram pra alguns meninos de hoje. Digo alguns, porque alguns meninos de meu tempo e até mais novos, cresceram e acharam de continuar brincando de prometer ou de meter medo uns nos outros. Feito muitos políticos meninos que ainda hoje estão nos céus da vida pública.

Pádua Marques é escritor e jornalista


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