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Escritor baiano "Elicio Santos" é nosso novo colunista.

Elicio Santos é natural de Ilhéus/BA. Usa o pseudônimo de "Marginaldo". O nome da coluna será "Literagindo" e será postado semanalmente com conteúdo variado sobre literatura.

Elicio começou a escrever na adolescência, a princípio somente poesia. Retornou com toda a força à seara literária em 2011. Fez duas oficinas literárias e hoje é estudante de Direito (décimo semestre). Remete colaborações periódicas às revistas "Capítulo Um", "Litere-se" e "Avessa". É completamente apaixonado pelo poder das letras. Tem quatro livros publicados. "Vozes Poéticas"; "Contos Urbanos", "O Porquê das Coisas" (prosa poética) e "Revolução Singela" (poesia). Integra o projeto "Leia livros" que publica e divulga autores nacionais gratuitamente.

Algumas premiações:


Email: elicio.nascimento@hotmail.com





GESTOS IMORTAIS 

O dia começa como sempre. Abraço grosso no filho e beijinho na mulher. Mal se contém de expectativa, pois o sonho do filho (também dele), finalmente desabrocha: convidado por uma gravadora de poucos. É só um teste, mas tem tudo para decolar. 

Durante a noite mal dormida, mediante uma consciência não exata, o pai relembrara todo o seu esforço. Desde as primeiras notas, quando o filho tinha três anos de idade, até o último ensaio conjunto para a oportunidade iminente, também refletira no livramento das suas dificuldades, talvez a chance de largar o que faz para dedicar-se à carreira do rebento. 

Conforme o hábito, antes do filho e da mulher acordarem, o pai se esmera no preparo da refeição matinal. Cansado, ele se senta à mesa. Aguarda, cheio de satisfação, a presença dos seus. Não demora a recebê-los com um sorriso emocionado, todavia não esperava a mulher tão arrumada. Os olhares se chocam durante um silêncio conhecido, entre suspeito e imprevisível. Sem aviso o pai se ergue, berra; soca a mesa e a alma da mulher. Um suspense incômodo se espalha. Molha a explosão anterior. O filho soluça os motivos da mãe enquanto o chefe da casa, de um lado para o outro, cozinha as suas faltas. Semblante estreito se desculpando, mãos ao alto pedindo compreensão até, num rompante, ficar de joelhos: 

- Vamos passar uma borracha nisso tudo, minha gente. Hoje é o dia do nosso menino, querida... consegui uma folga só pra curtir isso, precisamos de paz! 

- A doméstica aceita. Esquiva-se do abatimento em segundos. 

Risos encobrem o malsucedido. De mãos dadas, os três se acalmam durante um novo cântico do rapazinho. Ao final, os elogios dos pais. Quem se lembra dos xingamentos e ameaças? Provavelmente a destinatária, que solicita: 

- Jura se comportar, querido? – Cochicha e o abraça. A resposta vem muda e áspera, no cangote. 

A casa se alegra melodiosa, até a partida. Detalhadamente planejado pelo pai, o trajeto ao estúdio não pode falhar. 

Quando o carro deixa a garagem, enfrenta os admiradores que felicitam. Empunham os cartazes da vitória. O chefe do lar os cumprimenta, sem descuidar o volante. O homenageado quase chora, distribui tchaus mudos, pela janela entreaberta. 

Alguns minutos de estrada, o pai se desconcerta. 

- Pra que isso tudo, querida? 

- Isso o quê? 

- Esse excesso de maquiagem, você sabe que eu não gosto! 

- Vai começar?! – Ela desafia com os apetrechos em riste. Numa mão um “Boca Vermelha”, na outra o espelhinho dos retoques. 

Ele bufa se avermelhando. Alterna o foco entre a mulher, a direção e o filho. Passa a marcha junto ao acelerador, como quem se vinga. 

- Que é isso, querido? ... diminui! 

- Não, amor. Esse momento exige emoção! 

- Pra que andar tão rápido, pai! 

- Calma, filhão. Essa adrenalina é demais! A sua mãe também curte. Né, querida? – Indaga se virando ao lado. 

- Tá maluco, para com isso, pelo amor de Deus! – A mulher exclama toda encolhida. 

O pai acelera e faz ultrapassagens. Mãe e filho quase se estraçalham de clemência. A cada ameaça de choque, os conduzidos rezam. Repetem as súplicas que parecem inúteis até, de brusco, receberem a atenção. O pai freia e, com pouco, retoma a velocidade, mas num ritmo seguro. 

- Ah! ... Desgraçado, você fez de novo! – Berra tirando o cinto. Passa a esbofetear o seu homem. 

- Não, mulher... para! 

- Pai, cuidado! 

*** 

O quarto se revela, devagar. 

Bem que o pai tenta, mas não efetua os movimentos pretendidos. Sente dores por todo o corpo e a cabeça embaralhada. Grita o mais alto possível, ao descobrir que está num hospital. Logo uma mulher de branco se apresenta, jeito defensivo. 

- Bom dia! – A funcionária cumprimenta. 

- Bom dia, moça! ... eu, eu preciso ter notícias da minha família! ... onde eles estão? 

Após tossir e engolir muita saliva, um pouco cabisbaixa, a servidora anuncia: 

- Sinto muito! 

O pai deixa uma lágrima intrusa escorrer, mira o teto. Não une os outros sons que lhe chegam, pois fica muito ocupado dialogando com Deus. Do lado direito da Majestade, a mãe e o menino cantor, guiados pelo refrão angelical. Não aceita a despedida, que se refaz a cada segundo: abraço grosso no filho, beijinho na mulher.


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