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Pernoite em um amor distante | Jailson Jr.


Procuro um amor que denote o que eu quero dizer, em um equilíbrio tácito entre graves e agudos. Não um sarcástico ou um sincretismo de dúvida e banalidade, mas um amor gentil e com o lustre de uma peça de porcelana, banhado em um ribeirão de águas dançantes e que se misture ao ouro na bateia de um garimpeiro de botas sujas que revolve a terra do fundo, descansando na correnteza. Amor que vá livre, bata e deslize nas pedras cortantes, e que em cada desvio involuntário, uma canção surja em meio ao ricochete da natureza, em uma natural semelhança entre isso tudo: música, água, ouro e amor.

Amor é mais que signos no papel, primícias esdrúxulas e aparentes, verniz de embalagens vazias. Amor é instante de silêncio e mãos quentes, sentimento, ação, é uma volta na cidade fria de noite, enquanto ninguém vê, entre um sobretudo e chapéu preto, que caça barulhos para lhe fazer companhia frente ao nada, com a raiva estampada na face quando não possui a devida correspondência, pois amor não combina com unilateralidade. Procuro algo que levante a poeira do tapete com os pés e entre em casa, sente no sofá e peça café, que tenha o viço de uma alma feliz sobre os carmas retrógrados que teimam em aparecer e que apetecem as experiências, e que não se ocupe com nada além de ruminar veraneios e alimentar reciprocidades, sem culpa e dor, sem faz de conta.

Meu amor tem carteira de identidade e vida própria, pernas e cabelo. É uma melodia em sustenidos e bemóis, entranhado em dedos calejados e fricção de cordas, diria até crises tresloucadas de dedilhados. Esse amor não permeia o acaso nem coisas imaginárias, ou até o faça em limites receitados e aceitáveis, mas mesmo em face das criações necessárias da mente, ele é real, secular e palpável. Briga pelo domínio completo das coisas, escreve sobre paredes historietas de paredes, sortido em uma amizade decenal com os desafios que enfrenta, reinventando-se com o passar das estações frígidas e pernoitando em abrigos que o sustenham por um quarto de hora namorado. 

O amor circula como vento frígido entre os móveis do quarto, lança-se contra mim como um aviso lânguido dos céus quando não vejo nada ou muito pouco. Procuro-o, e ele há de aparecer. O amor que tanto procuro deve estar por aí, lendo textos em itálico sobre pergaminhos, amando e tomando taças de vinho, ouvindo Orbison ou órgãos centenários junto a cantos gregorianos, refletindo sobre a vida frente a altares barrocos, suntuosos e dourados. Baila pelas praças disfarçado de cotidiano a passos largos, mas carrega no peito casos de amor ferido, ação corroída. Por vezes ama sozinho, todavia, não deixa cair por terra seus passeios em seu úbere imaginar de sonhador, coisa de amor mesmo.

Uma estirpe tenaz e corrosiva, às vezes ele assume capas pretas taciturnas e nada amistosas. Pura proteção contra as intempéries indevidas, nada que a coação do retorno das insônias não resolva em uns poucos segundos de conversa boa. Procuro-o em poesias de Neruda e livros velhos esquecidos em bibliotecas, no romance que jaz na bolsa e que preenche as horas vagas da menina, claro como um espelho d'àgua, por sobre as praças ou ao lado em uma saudade qualquer no calor das três da tarde. As mãos doem, os cotovelos cansam. Os quase mesmos lugares presenciam as mesmas aspirações, diferentes na hora e no ato, supernalmente. Senti-o no ar, o amor, no teclado, na caneta, no acaso.







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