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O enterro das pedras | por Pádua Marques



Elias já não tinha mais de quem cuidar. Simplício Dias da Silva, com sua fama, glória e valentia na vila de São João da Parnaíba, estava agora morto e seria enterrado e o tempo se encarregaria de colocar um pano de esquecimento em cima. O escravo olhava por cima da janela que dava pra o lado da rua Grande, vindo do Macacal, as gaiolas de passarinhos e se lembrava que o senhor seu dono gostava deles nos poucos momentos longe das preocupações de fora. Simplício Dias da Silva sempre quando dava na lembrança, mandava comprar frutas das vendedoras de Ilha Grande. Gostava de ver os passarinhos furando as goiabas à procura de sementes.

Tão logo Simplício Dias da Silva morreu naquele dia 17 de setembro e ele Elias mandado tomar as providências de enterro, não se havia tido um rasgo de descanso naquela casa. Embaixo na rua e próximo de casa a venda de verduras e frutas foi proibida. Era pra respeitar com o silêncio. A escrava cozinheira, condoída de Elias, veio lhe trazer no início da noite e já passado o pior, uma tigela de paçoca de gergelim e chá, mas ele pouco fez caso daquela janta. Coisa de colocar um pouco na boca e sair pra ver quem chegasse pra sentinela. Vieram alguns principais de Parnaíba, comandantes de navios, representantes dos consulados da Inglaterra e da França, comerciantes, parentes e agregados. 

E assim foi aquele resto de tarde e começo de noite na vila de São João da Parnaíba com a notícia da morte de Simplício Dias da Silva. Os escravos tidos na cozinha, agora mais pobre que antigamente, iam e vinham trazendo cadeiras, água e alguma coisa de comida e o que fosse necessário pra quem estivesse chegando à sentinela. As mulheres traziam flores, que eram levadas até a parte onde estaria sendo velado o coronel. Mas, se medindo e contando pela quantidade e influências de quem estava entrando e saindo, agora eram poucos aqueles que vinham reverenciar o morto e consolar a viúva, a filha Carolina e os outros parentes.

Os tempos eram outros. Os negros cativos ficaram onde era pra ficarem, tomando cuidado pra que nada faltasse, mas longe da presença dos donos da casa. No meio da madrugada, com as sentinelas do defunto rareando ou indo embora, dona Isabel Tomásia e os mais próximos vieram rezar um terço pela alma do marido. Elias estava desde cedo e com a ajuda de outro negro, cavando dentro da igreja a cova onde seria enterrado o coronel, embora contrariando uma determinação de há muito tempo do bispo de São Luís, no Maranhão. 

O corpo de Simplício Dias da Silva chegou ao salão de baixo da casa de morada no começo da noite. Foi um momento de grande comoção pra os poucos presentes. Quem chegou mais perto pode ver que, ao contrário do que se esperava, o coronel não trajava o uniforme de gala com as medalhas. Estava vestido com um chambre branco de pano ordinário e nas mãos segurava um crucifixo de prata, o único sinal de sua antiga opulência. O rosto estava magro, os queixos fundos, olhos encovados, a pele seca, mais parecendo uma múmia do Egito. 

Um silêncio muito grande se deu tão logo os seis negros colocaram o caixão de madeira escura e sem ornamentos em cima da mesa baixa. Em seguida dona Isabel Tomásia ordenou que acendessem as velas e duas senhoras ao lado, se puseram a rezar, no que foram seguidas por quem estava presente. Elias estava entre a porta de entrada e o grande salão na parte baixa da casa. Atento ao meio da rua e a quem estava na sentinela. O cheiro das flores pra o defunto, misturado ao das velas grossas queimando, as vestes das senhoras com as cabeças cobertas por véus e batendo os beiços em orações, estava longe do que se passava lá embaixo no porto e pra os lados dos Tucuns e no outro lado da Ilha Grande de Santa Isabel.

Alguns comandantes de navios, como os dos brigues Rei de Lisboa, Independência e Santa Ana, ancorados desde o início de setembro no porto Salgado, tão logo tomaram conhecimento da morte do coronel colocaram as bandeiras a meio mastro e a tripulação não teve autorização pra baixar terra. Era uma determinação pra evitar confrontos com algum paisano em bebedeira e em sinal de respeito ao ilustre morto. Simplício Dias em vida muitas vezes os recebeu em sua casa pra demoradas conversas sobre a navegação costeira e os negócios. 

Longe e nem tanto, nos Tucuns e na Coroa, lugares onde estava o povo mais pobre, a milícia estava nas ruas estreitas e úmidas. A ordem era de que ninguém saísse pra os lados da igreja da Graça. Havia temor de que muitos negros e até gente pobre pudessem, se aproveitando da ocasião e do escuro da noite, mais exaltados, criar algum tipo de confusão e desassossego na sentinela do coronel e governador da vila da Parnaíba. As ruas estreitas indo pra região dos Tucuns e do Cheira Mijo foram ficando vazias. 

O escravo fiel, que pelo seu dono foi capaz de fazer umas poucas e boas na vila da Parnaíba, pintar o diabo de encarnado e se preciso fosse, ferir, matar e dar fim em gente que ameaçava Simplício Dias da Silva, nem se dava conta de que passados mais uns dias estaria abandonado e se não se cuidasse, pudesse ser assassinado por vingança de alguém na rua, dos Tucuns, na Coroa, no Buraco dos Guaribas ou no Testa Branca ou no porto, onde tinha muitos desafetos. 

Elias agora ali naquele momento, encostado na parede e vendo entrarem os ilustres, os amigos condoídos, os de longa data e até os inimigos do coronel, vinha martelando na cabeça uma ordem de seu senhor de há muito tempo, quando Simplício Dias da Silva ainda falava e podia ser ouvido. O medo de que depois de morto seu túmulo fosse profanado pelos seus inimigos, a quem havia feito mal, praticado algum tipo de violência. Naqueles momentos de solidão que antecipavam sua morte e tendo como única testemunha o escravo, o outrora senhor da Parnaíba temia pelo desamparo e a pobreza com que estava deixando a mulher Isabel Tomásia, a filha Carolina e outros da sua família. 

Elias ficou ali naquele sofrimento entre saber ou não saber o que seria se, de repente alguém fosse numa noite ou de madrugada abrir a cova e levasse o corpo de Simplício Dias da Silva e desse um fim nele, jogasse aos animais na rua ou no mato, queimasse, fosse o que fosse de ruim e de perverso. E tanto ficou naquela inquietação da cabeça que acabou de cócoras dando um cochilo. E nesse cochilo, Elias longe dos olhos de dona Isabel Tomásia e do chefe da milícia, que de ordinário fazia a ronda dando segurança a quem estava na sentinela, acabou sonhando que, sendo o caixão aberto pras despedidas da viúva, da filha e dos presentes, antes de descer à sepultura na igreja da Graça naquele dia 18 de setembro de 1829, nele não havia o corpo de Simplício Dias da Silva, mas pedras. 

Sim, pedras, muitas pedras. Umas grandes e outras de bom tamanho que dentro do caixão e cobertas de panos causavam impressão como se fosse um esqueleto de gente. E aquele sonho trouxe como que uma gastura, um peso na cabeça, um sono pesado, um frio no espinhaço e uns arrepios. Voltando daquele passamento ligeiro Elias ficou com medo de que tudo aquilo fosse um sinal de que coisa ruim haveria de acontecer. Simplício Dias da Silva ainda estava em cima da terra e já fazendo visagem? Santa Mãe do Céu, valei este seu filho das tentações do capeta! 

Causando assombroso em quem mais lhe deu fidelidade, mais esteve com ele depois de dona Isabel Tomásia nos últimos dias antes de morrer? Calculou e calculou os riscos. Daquele sonho com as pedras Elias tinha agora a intenção de fazer uma coisa que nunca seria descoberta por ninguém, mesmo que passados muitos e muitos anos, tempo a perder de conta. Iria depois do sétimo dia e a morte do coronel nem mais se falasse na Coroa e nos Tucuns, caísse enfim no esquecimento daquela gente toda, ele iria abrir a cova, retirar o corpo e enterrar bem longe, num lugar difícil de ser achado. 

* Pádua Marques, da Academia Parnaibana de Letras e do Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Parnaíba, colaborador do O Piagui.






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