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Artigo | O jogo de bola dos partidos de esquerda - Pádua Marques

Foto: Chico Rasta
Nestes dias tumultuados e de grande expectativa política no Brasil e que culminaram com a votação pelos deputados federais sobre a autorização do Senado abrir processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff, me ocorre lembrar passagens de minha infância no antigo bairro de Fátima, ali pelas bandas da Sebastião Basto, Madeira Brandão e os campos de pelada do Fabril e no terreno onde hoje foi construído o Hipermercado Carvalho, na avenida São Sebastião. 

Nós meninos costumávamos jogar bola nos finais de tarde, quando o sol estava esfriando ou aos finais de semana a partir de sábado pela manhã. Éramos meninos todos com idade entre oito e quatorze anos. Naquele tempo todo menino andava de calção e nu da cintura pra cima. Nada de usar tênis e esses bermudões de surfistas de hoje em dia. Calçados? Ninguém sabia o que diabo era isso! No máximo uma sandália dita japonesa gasta pelo uso debaixo de sol e de chuva. Mas nós meninos éramos valentes e unidos quando se tratava de nossos times de futebol. 

Entre os meninos de meu tempo estavam os filhos do “seu” Adonias, Joãozinho, Pedro, Nonato, o Antonio Luiz, o Neguim do Tintino, Elizeu, Jorge e João da dona Benta, Paulo Careca e seu irmão Carlos Alberto, o Im, o Luciano, Federal, o Preta e o Dodô, os irmãos Luiz e Chico Terto, o Ociomarzinho, Flávio Ayres, Martim Afonso, Ivaldo, Pipio e o seu irmão Zé Gomes, os irmãos Chico Carlos e Grilo, o Belossa, Dodó, Raimundinho e Chico Silveira, o Pinto do Zé de França, Joãozinho, Totonho e José, filhos da doceira Tomásia, os irmãos Carlos e Gilvan. Era muita gente. Tanta gente que hoje uma memória de quase sessenta anos é difícil lembrar. 

De vez em quando a gente inventava de jogar com outros times de meninos de ruas mais distantes e até de outros bairros. E era jogo apostado. Jogo apostado contos de cigarros Hollywood ou Minister e de outras marcas mais ordinárias. Mas também podia ser dinheiro, rateado entre o pessoal. A gente jogava bola pela Coroa, Guarita, Morro do Tiro, Pindorama, Curre, Prudente de Morais, Afonso Pena, Samuel Santos, São Tarcísio, James Clark e Tabajara. Mas nosso campo predileto mesmo era um pedacinho, um cantinho do campo do Fabril, que foi campo do Palmeiras, de Chaga Toba. 

Encurtando caminho pra chegar mais cedo no campinho lembro que era costume entre nós, meninos daquela infância livre no meio de uma pelada ou num jogo apostado, ocorrer algum desentendimento e daí se partia pra briga. Naquele tempo menino que não brigasse na rua não era menino. Servia como uma iniciação pra vida de rapazinho e daí pra vida adulta ser considerado e respeitado. E entre aqueles meninos havia uma hierarquia e uma camaradagem. Brigou com um brigou com todo mundo. 

Em muitas dessas ocasiões era escolhido entre os do grupo aquele menino que iria representar na briga seus companheiros. A escolha desse menino pelo líder, pelo mais velho e experiente como o defensor da honra do grupo era pra que não se chegasse todo mundo a um confronto, um enfrentamento desnecessário. Vitorioso, esse menino era trazido pra casa como herói e passava a ser um orgulho pra todos. Pois é desse jeito que estou vendo agora a atuação desses ditos partidos de esquerda que se formaram na cena política brasileira. 

Assim como nós, aqueles meninos que saíam aos finais de semana pra jogar apostado nos campos mais distantes e em muitas das vezes arriscando uma tragédia, quando íamos escondidos tomar banho de rio lá na Coroa, esses partidos de esquerda estão agora arriscando uma partida de futebol apostando conto de cigarro ou uns poucos reais. E o líder continua mandando pra luta aquele que julga com força e destreza suficiente pra defender a honra de todos.

*Pádua Marques - Escritor e Jornalista



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