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A ditadura inconsciente da secular geração do concurso público | Por Ithalo Furtado


“Como é? Você não pensa em fazer concurso público?”

Há uma canção de Chico Buarque que diz: ”Quem me vê sempre parado, distante, garante que eu não sei sambar…”. Talvez esta seja uma máxima do ser humano: deslocar o diferente e entoar o soberano canto das massas. E quantos não morreram e morrem pelo discurso de uma sociedade cada vez mais ávida por unidade de pensamento? É exatamente por isso que há algo de muito perigoso nas entrelinhas do questionamento inicial, aparentemente tão simples, e que se tornou quase uma espada de subjetividade feroz na boca de uma parte significativa das pessoas que pensam um dia em seguir carreira na área pública. E tal espada é lançada, especialmente, ante o peito dos que sonham com outras coisas. Sabe aqueles lunáticos que abrem seu próprio negócio e, no início, são vistos com a desconfiança dos olhares tortos?

Pois é.

Sabe estes que geram emprego e fazem o mercado girar, resolvendo as crises e os problemas mais triviais e cotidianos das pessoas?

Então.

Sabe estes que vivem de música, de literatura, pintando seus quadros ou com seus transados food trucks onde você come com os amigos na beira da praia?

Olha só.

Quanta gente diferente no mundo, não? Mas tiros de “Você não pensa em fazer concurso público?” matam ou enfraquecem milhares destas pessoas todos os dias.

Eu entendo que certas regalias são tentadoras para uma geração que, com toda a razão, almeja a estabilidade financeira cedo. Sim, eu entendo. Eu entendo a beleza do alto salário, do plano de saúde, do vale alimentação, do vale transporte, do plano de carreira e de toda a carga de status que a sociedade atribui ao concursado. E aposto que todo mundo também compreende a importância e a força de uma carreira que tanto tem a oferecer para quem escolhe abraçá-la. Mas será que esta significativa parte dos concurseiros entende o contrário? Será que entende que muita gente consegue a mesma estabilidade no setor privado ou então só quer viajar o mundo na boleia de caminhões sujos? Será que entende que o que vale para si não necessariamente precisa valer para o outro?

Mas esse processo não é casual. Nosso projeto de educação, historicamente, sempre foi voltado para um modelo militar de serviço. O próprio termo Educação é estranho — vem de “Educar”, do latim Educare que é uma derivada de Ex, que significa “fora” ou “exterior” e Ducere, que tem o significado de “guiar”, “instruir”, “conduzir”. Educar é condicionar alguém à uma estrutura. Nosso projeto de país nunca possuiu grandes espaços para colocarmos nossas subjetividades em pauta. O grande projeto de país que temos é voltado à necessidade de sobrevivência por um viés capitalista sob a regência da já fragilizada lenda da meritocracia.

Não há espaço consciente para construção coletiva de pensamento no atual modelo educacional brasileiro. O mesmo vale para nossa tão desprezada subjetividade, principalmente nas classes sociais mais baixas, como se as pessoas de baixa renda apenas cumprissem no mundo o papel limítrofe da sobrevivência. Apenas sobreviver e jamais experienciar qualquer epifania ou reflexão sobre sua própria existência. E, ora, se é para sobreviver que grande parte dos brasileiros luta, não é oferecendo independência que isso será resolvido de maneira recorrente, afinal, a busca por sobrevivência e a romantização da esperança são armas potentes para alienar uma população que abraça o mito de que somos todos iguais e alcançamos o futuro por puro mérito — daí a lenda da meritocracia brasileira — e que jamais abraçou ou foi abraçada pelo conceito de equidade.

Pink Floyd falou muito sério quando apresentou Another Brick in the wall ao mundo. A escola brasileira, em seu atual desenho, é orientada a criar braços em massa para a máquina estatal. Crescemos com ideias já estabelecidas sobre vencer. Conquistas precisam de um status quo para serem realmente vitórias. E a máquina segue formando engenheiros, médicos, advogados e nunca artistas, filósofos, cientistas sociais ou políticos. E não que uma seja mais importante que a outra ou que seja um erro escolher qualquer destas áreas mais clichês na nossa formação social, o problema é quando um modelo de profissão se torna uma tônica repetida à exaustão. Essa repetição sem critério algum acaba sendo o mote de um processo adoecido e uma geração, por mais inteligente e bem informada que seja, acaba crescendo repleta de medos e hábitos de gerações anteriores à sua.

Dos amigos e conhecidos que encontro pela rua, em filas de supermercado, em praças de alimentação ou mesmo nos botecos que frequento, creio que 70% ou já são concursados ou sonham com um emprego na área pública. Para o normativo social, isso quer dizer muita coisa. Meus pais já foram tão oprimidos por esse pensamento que não conseguem ver futuro em nada fora dele. Já estive em roda de amigos onde eu era o único que não queria saber de concurso público e fui fuzilado com julgamentos e clichês como “Tendo estabilidade, pronto! Eu abro meu negócio e fico só de longe administrando”. Já ligaram pra minha mãe implorando que intercedesse para que eu começasse a garimpar editais, pois era um louco de estar tentando seguir outro caminho. No caso, o meu, aquele que eu decidi trilhar e assumir todos os riscos envolvidos.

Assim como fez o Johann, um amigo que é artista de rua e ganha a vida com malabarismo no sinal. Sempre que calha de encontrá-lo em algum sinal fechado, abro um sorriso, grito seu nome e lhe entrego o que posso por me ressignificar o caos. Isto, acima de tudo, é uma quebra na estrutura da Educação da qual somos, não contemplados, mas obrigados a absorver, obedecer e repetir.

Milhares de pessoas pelo mundo alicerçam futuros e assumem suas desventuras sem condenar o sonho de ninguém, por mais estranho e louco que ele pareça ser e, na real, todo sonho parece uma grande loucura enquanto a realidade não o beija.

Afinal, o objetivo é seguir carreira pública ou criar uma seita com sentinelas do caminho alheio?

Postado originalmente no Midium e cedido gentilmente para o Chavalzada


Escrito por Ithalo Furtado
Escritor, compositor e ativista cultural. Textos diários sobre todas as coisas que não cabem no peito.









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