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Dois dedos de poesia | Carlos Drummond de Andrade - por Wellisson Santos.


Depois de muito tempo ausente eis- me aqui insistente e apegado ao mesmo desejo. O de tornar expressas minhas elucubrações de modo que alguns de vocês que chegarem neste singelo ambiente apeguem-se a poesia tal qual se desvela ao mundo. E com minha apreensão limitada traduzo- a com carinho e prazer a vocês. Para iniciar a coluna de hoje devo ressaltar alguns pormenores que me vieram à cabeça e outros que um ou dois daqueles que leram me disseram. Ei-los: compreendo que tentar expor a obra de uma vida em um pequeno comentário de no máximo mil caracteres é um tanto audacioso, e pode até soar como prepotência de minha parte. A partir disso, restringirei meus apontamentos à uma obra especificamente de cada autor que mencionar por aqui. Outro detalhe é que citarei no corpo deste texto e dos demais por vir versos conferindo-lhes pequenas observações. A obra em questão é de um autor muito conhecido no meio acadêmico e também entre o grande público em geral. Carlos Drummond de Andrade. “Claro Enigma” é o livro que mais aprecio em sua obra, e, portanto, o que trataremos.

Escolhi este porque considero – o completo. Isto mesmo, completo. Pois há nele a métrica a qual considero imprescindível à todos que leem e, por ventura, lerão poesia. Verso livre, modo de escrever poesia que traduz bem o modernismo e, sobretudo, o pós-modernismo. Linha temporal em que estamos inseridos. A musicalidade composta por rimas raras perfeitamente ritmadas, aspecto que detém o poder de gerar prazer a qualquer leitor que se atreve a conhecer este livro. Lançado em 1951 pela editora José Olympio contendo 41 poema e dividido em seis partes, como já ressaltado, retoma o formalismo nos moldes de um fazer poético clássico beirando o parnasianismo com uma linguagem muitas vezes capaz de nos levar a consulta de certas palavras. Como mencionei a musicalidade, aprecie o exemplo: 

MEMÓRIA

Amar o perdido
Deixa confundido
Este coração.

As coisas tangíveis 
Tornam-se insensíveis
À palma da mão.

Mas as coisas findas.
Muito mais que lindas,
Essas ficarão.


Perceba o ritmo bem arrojado junto às rimas dão uma entonação capaz de nos convidar à declamação. Dentre muitas coisas a mencionar, não posso prescindir o aspecto que me atrai muito à poesia. Sobretudo nesta obra. Nela sentimos que o autor imprime aos versos uma aspiração metafisica. Posso até dizer que os versos estão cheios, propositalmente, de uma filosofia existencialista que empreende esforço na busca de uma explanação sobre o existir e a relação com as coisas, ou melhor, o vínculo com o mundo e o próprio espanto com ser-aí-no-mundo. Aos que não conhecem esta expressão, ela é a tradução do termo alemão “Dasein” constituído conceitualmente pelo filósofo de mesma naturalidade, Martin Heidergger. Há dois poemas muito famosos neste livro, são eles: MÁQUINA DO MUNDO e RELÓGIO DO ROSÁRIO. Esses poemas carregam toda a estrutura que mencionei acima. Neles está intrincado arte e filosofia, à maneira drummoniana. Segue um trecho de ‘MAQUINA DO MUNDO”:


E como eu palmilhasse vagamente 
Uma estrada de Minas, pedregosa,
E no fecho da tarde um sino rouco

Se misturasse ao som de meus sapatos
Que era pausado e seco; e aves pairassem
No céu de chumbo, e suas formas pretas

Lentamente se fossem diluindo
Na escuridão maior, vinda dos montes
E de meu próprio ser desenganado,

A máquina do mundo se entreabriu
Para quem de a romper já se esquivava
E só de o ter pensado se carpia.

Abriu-se majestosa e circunspecta,
Sem emitir um som que fosse impuro
Nem um clarão maior que o tolerável

Pelas pupilas gastas na inspeção
Contínua e dolorosa do deserto,
E pela mente exausta de mentar

Toda uma realidade que transcende
A própria imagem sua debuxada
No rosto do mistério, nos abismos[...]


Devo a vocês alguns versos de “RELÓGIO DO ROSÁRIO”. Para mim este poema consegue expressar parte da natureza humana, ou pelo menos uma condição que está presente no espírito de nosso tempo ou, pegando o título do livro de Karl Jaspers, “A situação espiritual de nosso tempo”. 

Era tão claro o dia, mas a treva,
Do som baixando, em seu baixar me leva

Pelo âmago de tudo, e no mais fundo
Decifro o choro pânico do mundo,

Que se entrelaça no meu próprio choro,
E compomos os dois um vasto coro.

Oh dor individual, afrodisíaco
Selo gravado em plano dionisíaco,

A desdobrar-se, tal um fogo incerto,
Em qualquer um mostrando o ser deserto,

Dor primeira e geral, esparramada,
Nutrindo-se do sal e do próprio nada[...]


Acima mencionei a palavra completo referindo-me ao livro. Que fique claro que não significa que os demais deste autor não o sejam aos leitores dele. Pois o são. No entanto, ao meu ver e apreço estético, “Claro Enigma” é um livro que faz aqueles que já leem poesia aprofundarem-se nesse gênero e aos que não, que caíram aqui por seja qual for o motivo, iniciarem sem intenção de parar. Pouparei a vocês de lerem muitos adjetivos endereçados a Drummond. No que concerne a “situação espiritual de nosso tempo”, aspecto este que percebo em todo o poema “RELÓGIO DO ROSÁRIO”. Aqui por exemplo: “Pelo âmago de tudo/ e no mais fundo decifro o choro pânico do mundo/”. E, especialmente, aqui: “Oh dor individual, afrodisíaco/Selo gravado em plano dionisíaco”. No início do verso o eu lírico clama “Oh dor individual” logo mais à frente diz: “dor primeira e geral”. Nesse sentido, mesmo que a dor pertença ao indivíduo, ela brota de um aspecto geral, ou seja, está presente em todos. Para ser mais claro posso usar o exemplo que é frequentemente ouvido por todos, aquele velho e conhecido vazio existencial que nos acompanha. Por isso em outro poema de outra obra chamado “CARREGO COMIGO” Drummond expressa bem essa condição intrínseca do ser na qual carrega algo que não se pode dar um nome definido. E assim, chamarmos de vazio.


Carrego comigo
há dezenas de anos
há centenas de anos
o pequeno embrulho.


Para finalizar, uma observação é importante: quando digo espiritual não é especificamente no sentido religioso.Espero ter podido acrescentá-lo algo positivo. Muito obrigado por ter lido este pequeno, se é que posso chamar, artigo nesta coluna. Até a próxima!!!


Por Wellisson Santos. Mais sobre o autor (AQUI)













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