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O Calango à Francesa | por Pádua Marques


Simplício estava feliz, embora por dentro com o coração aos pedaços. Havia tempos que sentia e via sua fortuna e opulência saindo de dentro de casa e indo parar na mão de agiotas em São Luiz. Tudo por conta das investidas que achou de dar nas tramas da política, as intrigas com vizinhos por causa do irmão Raimundo, assassinado quase na porta de casa e de brigar por terras que não eram suas e nem seriam de seus descendentes.

Constance e Apolinaire Dabreux chegaram numa canoa larga puxada a remos por doze negros, vindos da Tutoia, no distante Maranhão. Era por volta do meio dia quando subiram o barranco que dava para a casa de Simplício Dias da Silva e sua família. A francesa subiu numa liteira carregada por dois criados enquanto o marido foi montado num cavalo pequeno.

Simplício e dona Isabel receberam os visitantes ainda na parte de baixo do sobrado de paredes encardidas, de dois andares, no meio entre um outro de esquina e a igreja, de frente para um campo de areia onde a vista mal alcançava. A mulher do anfitrião brasileiro estava vestida sem muita ostentação. Não era bonita. Morena, baixa, rosto latino e tinha uma verruga embaixo do lábio. Em Constance causou uma certa repugnância, mas se conteve. A filha, uma menina de seus onze anos, de pouca presença.

Era o que se esperava de uma criança nascida e criada naquele lugar de pouca gente civilizada, com as poucas ruas cheias de soldados, homens rudes e negros suados, embarcadiços e negras nos mais diferentes ofícios. Constance tão logo subiu as robustas escadas de madeira para acomodar a bagagem, trouxe na volta uma caixa. Chamou a menina e entregou pedindo que abrisse o presente. Uma bonita boneca de porcelana, olhos pintados de azul e cabelos humanos.

Uma joia na frente daquelas suas de pano ou de sabugo de milho feitas pelas criadas. Recebeu e tratou de se retirar sem agradecer. Era acanhada demais e mais ainda com estranhos. Para dona Isabel Thomásia, um xale negro de renda espanhola e um corte de seda azul turquesa. Simplício havia ganhado de presente de Apolinaire Dabreux um rico estojo de escrita com tinteiro de prata e cuja tampa era de cristal da Boêmia.

Os dois homens agora conversavam na janela de cima do segundo piso enquanto olhavam o serviço dos negros lá embaixo no cais. Olhando em volta, nada era verdade do que Constance ouviu pela boca de outros franceses encantados com a América do Sul. Simplício e sua família estavam arruinados. A pobreza começava a bater na sua casa pela porta dos fundos e a cozinha era testemunha. Mas com o casal estrangeiro, Simplício quis fazer bonito.

Na missa de domingo, Constance e Apolinaire Dabreux, Simplício Dias e dona Isabel Thomásia ficaram na parte reservada aos principais. Após a demorada celebração foi ordenado que entrassem três negros, todos jovens, entre quinze e vinte anos. Era a orquestra de que tanto Constance e o marido ouviram falar ainda no porto de Marselle, de que um rico comerciante no Piauí mantinha às suas custas. Executaram duas peças sacras curtas e saíram silenciosos. Estavam vestidos com roupas ordinárias e mal cortadas. Mas um detalhe chamou a atenção, estavam descalços.

Apolinaire Dabreux acompanhava a música dos escravos com os olhos fechados, a mão na boca escondendo uma certa surpresa e reprovação. Como podia numa terra daquela, distante da sua França e da civilização, alguém à custa de muita teimosia e violência meter na cabeça daqueles negros um rasgo de arte, uma arte que só era possível e vinda da Europa? Simplício olhava para o casal francês como que procurando aprovação. Estava radiante.

No almoço, servido na parte de baixo do sobrado, a mesa estava farta. Fazia muito tempo que isso não acontecia. A louça estava limpa, os talheres lustrados à custa de muita areia lavada e sabão de coco. Bananas, mangas e laranjas vindas do distante Maranhão, carne de gado ensopada, perus e galinhas assados, vinho do Porto e água de coco. Constance ficou admirada com aquela bebida. Apolinaire não demonstrou muito gosto pela novidade. Mas bebeu um copo.

De repente, assim do nada, todos sentados em volta da mesa enquanto a criadagem trazia e retirava pratos, entra um calango. Simplício, que vinha convalescendo de umas bolhas nos pés, foi o primeiro a dar sentido. O lagarto feio, pele entre o negro e o cinzento e que quando parado ficava balançando a cabeça, atarantado, correu para debaixo da mesa e quase se perde embaixo dos vestidos das mulheres. Gritos e mais gritos se ouviram. Os criados vieram com pedaços de pau e cabos de vassoura tentando achar e espantar o bicho.

Já nesse instante as duas mulheres haviam subido as escadas e estavam muito aflitas. Um calango. Simplício se pôs a dizer para Apolinaire Dabreux como era viver numa terra ainda cheia de animais venenosos e até de vez por outros selvagens. O francês ia ouvindo tudo, concordando e consigo pensando. Não, aquela terra perdida da América do Sul iria apenas ser outra Jamaica, Haiti e Cuba. Não e nunca seria como a França! Na sua França jamais se teriam calangos à mesa.

* Pádua Marques, da Academia Parnaibana de Letras e do Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Parnaíba, colaborador do O Piagui. 






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