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O bacamarte e a lança - Pádua Marques


Mal havia tirado a xícara dos beiços, sozinho à mesa naquela manhã de março de 1825, Simplício Dias ouviu baterem com insistência na porta de entrada da sua casa na rua Grande. Na noite de véspera tinha ido dormir tarde escrevendo uma longa carta ao imperador dom Pedro I em que ao lado de outra do governador da província solicitava que fosse anexada ao Piauí a barra de Tutoia, no Maranhão. Essa desavença com aquele pessoal não podia ficar pra vida toda e tinha que ter um fim.

Elias veio dizer que logo de manhã antes do cantar dos galos haviam atracado no cais cinco canoas longas cheias de índios. Não dera ainda pra saber de qual tribo eram devido à escuridão, mas eram assim por alto uns vinte, e entre eles mulheres e crianças, alguns estavam ao que parecia doentes. O desjejum de Simplício Dias, coalhada, tomada com bolo de milho e um pedaço de abóbora cozida, mal desceu na garganta. O medo subiu. Correu no andar de cima e foi buscar o bacamarte.

Sem dar nenhum sentido de acordar dona Isabel, as filhas e a criadagem, desceu as escadas e quando chegou no meio da rua de frente de casa foi logo cercado pelo pessoal da guarda miliciana. Simplício mal se deu conta, mas estava ainda com a roupa de dormir e com a cara inchada. Elias se adiantou e disse que os índios estavam naquele momento subindo o barranco e vindo no rumo das casas de comércio e da igreja. De certo que chegaram com o tempo turvo, mas foram atraídos pelas lanternas das embarcações no porto.

Simplício Dias chamou os homens e falando mais baixo do que de costume deu ordens de que em qualquer caso não atirassem ou fizessem qualquer movimento bruto. Índio era bicho arisco e num descuido até podia haver morte se estivessem cercados e enfezados feito o cão. Mas encarregou ao capitão do porto que ficasse de cima e de olhos bem abertos. Nunca tinha visto índio assim tão de perto na vida. Mas seria corajoso pra até chegar e conversar e saber o que queriam na Parnaíba.
O medo era de que tão logo vissem movimento nos armazéns e nas repartições do porto passassem e subissem o barranco indo acabar na frente da igreja. E estando eles ali e com o movimento e a curiosidade não quisessem mais arredar o pé da Parnaíba. Daí pra criarem confusão, era pouca coisa! Mas os índios ficaram lá embaixo do barranco no lado esquerdo, vindo da Barra do Longá. Entrando e saindo das canoas e chamando a atenção dos marinheiros dos navios. Não estavam em posição de beligerância, mas admirados com tudo.

Do ponto de onde estava Simplício Dias pode ver que eram até muitos. Eram de estatura pequena, cabelos pretos, encardidos e de pele escura. Como peça de vestir apenas umas cintas de algum tecido ou fibra de palha embaixo do umbigo. As mulheres seguiam a mesma vestimenta e com outras cintas cruzando por debaixo dos peitos grandes as costas, carregavam umas crianças, que pelo visto ainda não eram de caminhar e tendo assim uns poucos meses de vida. Sobre armas, apenas arcos e flechas com menos de uma braça de comprimento. Houve quem dissesse que viu mais deles já na Barra do Longá vindo se juntar aos de Parnaíba. 

Simplício Dias mandou que Elias fosse incontinenti fechar as portas da igreja e avisar a quem encontrasse pelo caminho que não abrisse porta de loja ou fosse o que fosse antes de suas ordens. Mas já era tarde. Os estabelecimentos já estavam abertos e o movimento vindo e indo pra o cais era o de sempre. Não teve como evitar. Logo o cais estava cheio de curiosos dando comida e tentando falar com os índios, se admirando do tamanho das canoas ou tirando brincadeiras com os soins. 

Os embarcadiços, soldados rasos, bêbados, desocupados e negros de serviços no cais do Porto Salgado estavam ali com aquela curiosidade sem vergonha por causa das índias nuas. Não eram de certo bonitas, mas como se encontravam acabavam despertando neles certos desejos e saliências. Riam, debochavam, ofereciam moedas e alguma coisa de comer pra elas. Naquela noite ninguém dormiu na Parnaíba, na parte mais próxima do porto, embora se soubesse que eram índios pacíficos que se perderam tentando alcançar as Canárias. O dia passou e a noite veio. Os índios foram perdendo a importância. No outro dia, quando a Parnaíba despertou bem cedo e foi ver, eles tinham ido embora.

* Pádua Marques, da Academia Parnaibana de Letras e do Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Parnaíba, colaborador do O Piagui. 






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