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A herança da dentadura | por Pádua Marques

O velho Benedito Laurindo Chaves estava dentro do caixão, pronto pra ser enterrado naquele dia de sábado, rodeado e chorado por todos os seus filhos, afilhados, parentes, agregados, moradores de suas terras, naquela imensidão da Barra do Longá, quando um deles, o Genésio, veio cochichar no ouvido de Raimundo, sobre onde pudesse estar uma das mais cobiçadas partes de suas posses, uma dentadura toda de ouro, mandada fazer em São Luís, no Maranhão há muitos anos, ainda quando seu pai era homem de tutano nas canelas e tinha coragem pra andar furando o mundo. 

Benedito Laurindo Chaves, o Boca de Ouro, que se pabulava ser amigo dos homens mais ricos da Parnaíba, estava agora morto e seria enterrado dentro de mais um pouco num cemitério humilde e cheio de carrapichos naquele sábado de julho de 1939 sem que tivessem seus filhos recebido sequer um voto de sentimento de pesar dos seus antes amigos abastados. Estava era deixando pra muita briga pelos herdeiros, o que sobrou de algumas léguas de terras alagadas cheias de carnaubeiras, umas cinquenta cabeças de gado pé duro e duas casas de aluguel se esfarelando de cupins no centro de Parnaíba. 

Quando vivo, Benedito Clarindo Chaves foi um homem vaidoso. Vaidoso e metido a fazer filhos dentro e fora de casa. Em casa, com a mulher Sebastiana, a dona Tiana, teve o mais velho Raimundo, seguido por Maria, Luzia, Teresinha, Benedito Filho, Genésio, Antonio e o caçula Pedro. Fora de casa fazia os filhos e até trazia pra mulher criar, dizendo que eram afilhados de gente pobre dos Tucuns em Parnaíba. Nessa situação foram uns três. Isso sem contar algum filho perdido em São Luís, pela Tutoia, Araioses, João Peres, tudo no Maranhão. 

Dizia ser amigo dos grandes e mais ricos da Parnaíba, sem distinção se eram os ingleses ou os franceses, os Clark ou os Marc Jacob. Nos festejos de Santa Luzia na Barra do Longá, dava todo ano um garrote pra o leilão, pagava batizados e casamentos, rodas e rodas de aguardentes pra os caboclos trabalhadores nas roças de arroz ou batedores de palha. 

E entre as extravagâncias estava a de ter mandado fazer em São Luís numa de suas viagens, uma dentadura toda de ouro, uma fortuna e que chamava a atenção de até quem estivesse longe. Por quantas e quantas vezes as raparigas da Parnaíba deram bebida pra ele tentando embriagar pra depois roubar aquela fortuna! Mas Boca de Ouro dormia com um olho aberto e outro fechado e as caixas das orelhas levantadas, que nem veado perto de vereda. 

Com o tempo e os filhos crescidos ele foi deixando as farras e as bodegas, as viagens pra São Luís, os presentes pra Deus, pras igrejas de Nossa Senhora dos Remédios no Buriti dos Lopes e a de Santa Luzia, na Barra e todo mundo. Achava que corria riscos sempre que andava em cidade grande por causa da dentadura de ouro. Ficou mais em casa, vindo muito pouco em Parnaíba, só quando de alguma necessidade. 

Certa vez bateu na porta dos ingleses pra pedir socorro de uma dívida devido ter perdido com as enchentes umas oito léguas de terras cheias de carnaubeiras prontas pra corte, entre a Barra do Longá e os Araioses. Mas foi naquele edifício todo rico e imponente que viu riqueza, coisa nunca vista por um sujeito sem origem de sua marca!

Refinamento e elegância com aqueles quadros, cortinas, prataria. Tomou chá em xícara de porcelana, uma coisa nunca vista. E comeu uns biscoitos finos, mas tão finos que se desmancharam e foram grudar no céu da boca feito hóstia! Passou foi vergonha! Nunca dona Tiana calculou o marido comendo biscoito igual!

Mas os ingleses fizeram Benedito Clarindo Chaves bater com a cara na porta e sair com as mãos abanando. Desgostoso, passou a falar de tudo quanto era estrangeiro pra os comandantes de alvarengas e vapores. Cobria os ingleses e franceses de Parnaíba de tudo quanto era nome feio. Filhos dessa e filhos daquela! Ele tinha filhos, mulher, afilhados, umas propriedades, compromissos com os caboclos, gado pra dar de comer e que agora não valiam um vintém na praça! Aquilo era coisa?!Pois não é que mandaram vender a dentadura de ouro? Onde já se viu uma desfeita daquelas?

E logo ele, Boca de Ouro, que até chegou sonhar um dia ser tratado por coronel, como eram tratados seu Jonas Correia e Zé Narciso. Mas seu Benedito Laurindo Chaves bem que podia ter nascido com nome de família, como achava que devia ser, assim feito os Moraes, os Clark, Jacob, Santos, Veras, Correia. Mas nasceu mesmo foi no distante São Bernardo, no Maranhão e veio já grande, de canoa, no rumo da Parnaíba, com pouca roupa numa mala de madeira e algum dinheiro no bolso. 

Trabalhou feito um cão por um tempo nas embarcações que subiam ou desciam o rio e foi nesse movimento pra cima e pra baixo que aprendeu a negociar com cera de carnaúba, naquele tempo e por um bom tempo um verdadeiro ouro em pó. Trabalhou em armazéns e casas de exportações ditas menores na praça de Parnaíba, onde aprendeu de fio a pavio todo o traquejo de preços, companhias de navegação, câmbio, qualidade de cera e de pó e sem sombra de dúvidas, ganhou muito dinheiro. Daí ter feito a tal dentadura. 

De uns anos pra cá foi ficando pobre e cheio de dívidas, viúvo de Tiana, doente, movidinho. Os agiotas da Parnaíba, tudo, sem tirar um, viviam batendo na sua porta dia e noite e ameaçando lhe matar. Os filhos crescidos, cada um do seu jeito e trazendo toda sorte de contrariedades pra dentro de casa. Agora ele não prestava pra quem tanto ajudou, era miserável aqui, ladrão acolá, unha de fome, mão fechada! Cadê aqueles afilhados que vinham todo ano na sua porta pedir a bênção? Cadê os padres do Buriti e da Barra, que viviam pedindo ajuda nos festejos?

Benedito Laurindo Chaves agora estava ali dentro daquele caixão, de cara pra cima, rodeado pelos filhos, uns intrigados uns com os outros, mexendo nas coisas atrás de alguma coisa de valor, furtando as miudezas, metendo nos bolsos esta e aquela peça. E os poucos criados já sabendo que iriam mais tarde parar no olho da rua, sem nada, esquecidos pelos filhos do morto. Quem sabe até sendo acusados do sumiço disso ou daquilo mais. Mas era assim, a ingratidão se revelando e um ditado certo, filho não puxa pai.

E por certo o objeto mais procurado naquele momento da sentinela dentro daquela casa deveria ser a tal dentadura! Uma peça linda, grandiosa, de valor incalculável, toda fornida, uma maravilha! Por certo cobiçada por tudo quanto era ladrão da Parnaíba, pelos ourives, pelos agiotas e tudo mais. Mas ninguém sabia era de nada!Quando adoeceu e já sentindo a morte fungando no seu cangote, Benedito Laurindo Chaves, o Boca de Ouro, deu na cabeça de deixar a peça com um empregado de sua confiança, seu conterrâneo de São Bernardo. 

A ordem era pra que tão logo ele morresse e alguém fechasse as capelas dos seus olhos e os filhos andassem atrás da dentadura, Ribamar era pra dizer que foi perdida na Santa Casa de Parnaíba, jogada no rio, aquela coisa imunda! Mas ela, a dentadura há tempos havia sido era derretida e o ouro virado muitos cordões,anéis e alianças, que agora estavam numa loja da praça da Graça.

(*) Pádua Marques, cadeira 24 da Academia Parnaibana de Letras é  jornalista, romancista e contista. 






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